O lugar da música de concerto nos 5.570 municípios brasileiros

por João Marcos Coelho 16/12/2015

Os jornais divulgaram esta semana o último levantamento nacional do IBGE sobre o estado da cultura nos 5.570 municípios brasileiros. Os números são impressionantes, do lado bom e do lado ruim.

 

Nós, que vivemos profissionalmente ligados à música clássica, muitas vezes nos esquecemos da realidade cultural do nosso país. Menos de 600 dos municípios brasileiros têm um cinema. Isso significa menos de 11% do total. Teatro ou sala de espetáculos constituem luxo de apenas 23% dos municípios. Em compensação, 97,1% das nossas 5.570 cidades possuem biblioteca. Cem por cento? Só mesmo a TV aberta.

Tudo isso dá o que pensar. Primeiro, que o Brasil é praticamente virgem quando se pensa na música clássica, cujo alcance não deve ultrapassar os 2, no máximo 3% da população, numa estimativa superotimista.

Do que precisamos mais? De ilhas de excelência ou do chamado trabalho de base: levar a população a ao menos ter contato imediato, uma vez na vida, com a música de concerto?

A pergunta soa atraente, mas é falsa. Precisamos sim de ilhas de excelência, como comprovam a belíssima arrancada das orquestras sinfônicas em várias capitais brasileiras, espelhadas no case Osesp. Infelizmente, elas “ocupam” poucas capitais. Necessitamos, talvez de modo ainda mais urgente, de caravanas do tipo Bye Bye Brasil (ave, Cacá Diegues) que circulem de modo permanente pelo país. Os locais já existem, são as bibliotecas. Não são necessários investimentos em obras físicas (as preferidas por 10 entre 10 autoridades, municipais, estaduais ou federais). Segundo a pesquisa do IBGE, 37% dos municípios têm centros culturais. Perceberam? Quando obras entram na estória, cresce o interesse da área política pela “cultura”.


Betty Faria (ao centro) nas gravações do filme Bye Bye Brasil (1979), de Cacá Diegues [imagem: reprodução]

Esqueçam as obras. Basta baixar em cada uma das bibliotecas dos cerca de 4 mil municípios que não possuem teatro ou sala de espetáculos ou dos 4.900 que nem cinema têm. Organizar dezenas de caravanas tipo Bye Bye Brasil e ocupar o calendário dos doze meses do ano com “ocupações” – o termo está na moda, no universo artístico-cultural. E, claro, não esquecer a prima pobre, a música de concerto. Incluir sempre um grupinho de música de câmara.

Afinal, os 5.570 municípios brasileiros não precisam de mais festivais breganejos etc. e tal. Isso a TV aberta já faz.

Fico pensando que devo ser muito burro. A ideia é tão óbvia. Por que ninguém pensou nisso ainda? Ou pensaram e descartaram porque é desintere$$ante?

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