Festival de Campos do Jordão precisa voltar a Campos do Jordão

por Nelson Rubens Kunze 14/08/2026

Se a Fundação Osesp e a Secretaria da Cultura realmente buscam a institucionalização do Festival de Inverno de Campos do Jordão – honrando o legado do maestro Eleazar de Carvalho –, elas devem recuperar a dimensão de imersão que marcou sua criação, levando-o de volta à Serra da Mantiqueira 

Assisti no domingo, dia 2 de agosto, na Sala São Paulo, ao concerto de encerramento do 56º Festival de Inverno de Campos do Jordão. Apresentou-se a orquestra formada pelos bolsistas do Festival sob regência de Roberto Minczuk, que é, desde essa edição, o diretor artístico do evento. O concerto teve no repertório as Sinfonias nº 3 e nº 4 de Johannes Brahms. 

Foi um concerto excelente, com os bolsistas demonstrando o alto nível artístico que o programa pedagógico do Festival – que envolveu 239 alunos e 52 professores – é capaz de alcançar.

Após a apresentação, houve a cerimônia de entrega do Prêmio Eleazar de Carvalho aos participantes que se destacaram ao longo da programação pedagógica (clique aqui para ler a notícia sobre os vencedores). 

Conduzida pelo superintendente educacional da Fundação Osesp, Rogério Zaghi, a cerimônia contou com a presença de Roberto Minczuk, de seu irmão Arcadio Minczuk, que é o coordenador artístico-pedagógico do festival, do CEO e presidente da Fundação Osesp, Marcelo Lopes, e de Marcelo Assis, secretário executivo da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. Também participaram duas professoras desta edição do Festival, a violinista Maria Fernanda Krug, do Theatro Municipal de São Paulo, e a percussionista da Osesp Elizabeth Del Grande. 

As falas dessas autoridades reforçaram a importância da existência do festival, que desde a sua criação teve papel fundamental na formação de diversas gerações de músicos – os irmãos Minczuk, ambos ex-alunos do Festival, são exemplo disso.

Mas o que me chamou a atenção foi o fato de tanto o secretário executivo da Secretaria, Marcelo Assis, quanto Marcelo Lopes, presidente da Osesp, anunciarem a ampliação e a institucionalização do Festival tendo em vista a contratação dos irmãos Minczuk para a direção do festival para as próximas cinco edições. “A notícia boa é essa: nós temos agora um festival que vai se ampliar, que vai se institucionalizar, e vai com certeza prover a cada ano sementes mais valorosas, de melhor qualidade para a nossa música clássica”, afirmou o CEO da Fundação Osesp.

Marcelo Lopes também fez referência ao maestro Eleazar de Carvalho, um dos criadores do Festival.

Como se sabe, Eleazar inspirou-se no Festival de Tanglewood, nos Estados Unidos, onde foi professor. Em Tanglewood, o grande diferencial é a verdadeira imersão musical dos jovens músicos, que, além de aulas e da prática de palco em concertos sinfônicos e de música de câmara, convivem no mesmo ambiente com professores e músicos profissionais de alto nível. 

Em Tanglewood, o grande diferencial é a verdadeira imersão musical dos jovens músicos, que convivem no mesmo ambiente com professores e músicos profissionais de alto nível

Em Campos do Jordão, até 2016, também era assim, com bolsistas e professores hospedados em Campos do Jordão, onde ocorria o programa pedagógico. Mas, em razão da crise e de cortes orçamentários, a Fundação Osesp viu-se obrigada, naquele ano, a transferir a parte pedagógica para São Paulo. Na época, o então coordenador artístico-pedagógico do festival, Fabio Zanon, em entrevista à Revista CONCERTO, afirmou: “No longo prazo, todo mundo quer voltar para Campos do Jordão. [...] (mas) O festival só poderia voltar para lá com o centro de estudos, uma infraestrutura construída para abrigar todas as atividades. O ano que vem é a ocasião para se discutir isso de novo, pois marca os 50 anos do festival” (leia aqui).

O ano que vem foi o ano de 2017. Mas nunca mais se falou nisso...

A ideia da construção de uma infraestrutura adequada para aulas e para a acomodação de bolsistas e professores em Campos do Jordão não era nova: as condições precárias de alojamento e trabalho eram, desde sempre, uma de suas principais limitações. Já em 2009 (há 17 anos!), em coletiva de imprensa, o então secretário da Cultura João Sayad apresentou um arrojado projeto de alojamento para bolsistas. O festival, que na época era realizado pela OS Centro Tom Jobim e tinha também Roberto Minczuk como diretor artístico, completava 40 anos e atravessava uma fase de crescimento.

No domingo, na cerimônia de premiação, Marcelo Lopes afirmou: “Este ano completam-se 30 anos do falecimento do maestro Eleazar de Carvalho, que foi o grande preceptor, a pessoa que criou este festival com a ideia de que a música no Brasil precisava de mais desenvolvimento. Ele sempre falava: ‘é aqui, em Campos do Jordão – e aqui, agora, na Sala São Paulo também –, o lugar de plantar a semente’”. 

Parece que o vejo diante dos meus olhos dizendo, com aquela sua voz impostada e seu humor irônico: “Senhores, não vejo nenhuma araucária por aqui!”

Evidentemente, Eleazar de Carvalho não citou a Sala São Paulo, que ele nem chegou a conhecer. Mas mesmo que a tivesse conhecido, não acredito que aceitaria o Festival de Inverno de Campos do Jordão, com seu conceito de Tanglewood, transferido para São Paulo. Parece que o vejo diante dos meus olhos dizendo, com aquela sua voz impostada e seu humor irônico: “Senhores, não vejo nenhuma araucária por aqui!”.

É preciso reconhecer e aplaudir o investimento que a Secretaria da Cultura realiza no Festival de Inverno – neste ano, do custo total de R$ 8,6 milhões, R$ 5 milhões foram aportes diretos do governo do estado (o restante foram R$ 2 milhões da Concessionária Eco Jordão e R$ 1,6 milhões dos patrocinadores Almaviva Experience, Desenvolve SP, Energo-PRO, Grupo HDI, Minalba, Nacional Gás Butano Distribuidora, via Lei Rouanet).

Contudo, para uma verdadeira institucionalização do Festival de Inverno de Campos do Jordão, a Fundação Osesp e a Secretaria da Cultura devem recuperar a dimensão de imersão musical que marcou a sua criação.

Vamos fazer jus à memória e ao legado de Eleazar de Carvalho levando o Festival de Inverno de Campos do Jordão de volta a Campos do Jordão, em uma construção com infraestrutura adequada que finalmente atenda a suas necessidades!

Auditório Claudio Santoro, em Campos do Jordão (divulgação, Museu Felicia Leirner)
Auditório Claudio Santoro, em Campos do Jordão (divulgação, Museu Felicia Leirner)

 

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