Em cena, o universo poético de Elomar

por João Marcos Coelho 23/07/2026

Apresentação de Auto da Catingueira no Teatro Cultura Artística, com grande elenco e ensemble barroco, mostra obra que desafia julgamentos

“Sinhores, dono da casa/o Cantadô pede licença/pra puxá a viola rasa/aqui na vossa presença/prás coisa qui fô cantano/assunta imploro atenção.” 

Com estes versos cantados pelo narrador, embarcamos todos – palco e plateia do Teatro de Cultura Artística – no universo poético-musical especialíssimo do Auto da Catingueira, primeira das óperas de Elomar Figueira de Mello, composta nos anos 60 e gravada em áudio nos anos 80, mas só agora finalmente levada à cena, com arranjos de Henrique Gomide, direção cênica de André Heller-Lopes, direção musical de David Rabinovich. E ótimo elenco de cantores: Gabriella Pace é Dassanta, Giovanni Tristacci, o Cantador, Geilson Santos, o Tropeiro, e Vinicius Atique, o narrador.

Um privilégio. Esta é a melhor palavra para definir o sentimento de quem assistiu ao primeiro dos dois espetáculos, dia 22, tendo na plateia o próprio Elomar e como destaque seu filho João Omar ao violão, ao lado do Apollo Ensemble holandês, numa formação barroca: dois violinos, flauta doce, oboé, fagote, contrabaixo e cravo. Assim mergulhamos no Brasil profundo, porém com sonoridades europeias. A segunda e última récita acontece nesta quinta-feira, dia 23.

Dassanta, a pastora de cabras, vive um casamento solitário e frustrado com Tropeiro, constantemente afastado em viagens. Surge, então, o Cantador, que se interessa pela protagonista e passa a cortejá-la. Ameaçado, o marido convoca o intruso a um desafio de trovadores, desembocando num tenso desafio a faca. Nas palavras de Elomar, “Dassanta, uma moça bonita catingueira, termina provocando um desafio de dois violeiros que vão improvisando versos. Eu canto uma música sertânica, vaqueira, a partir dos cânticos que ouvi quando era menino”. Também fica clara a assimilação, pelo compositor, dos desafios dos violeiros nordestinos de cordel. 

Em vez das sanfonas, violões e flautinhas de taquara, os instrumentos barrocos do Apollo Ensemble escancaram o vínculo muito forte, umbilical, entre esta música atávica nordestina e a Idade Média e a era barroca europeia. E com um elenco de excelentes cantores, conceção cênica e arranjos brasileiros. 

Filho de tradicional família da zona da mata baiana nascido em 1937, na Fazenda Boa Vista, em Vitória da Conquista, Elomar construiu uma obra que desafia julgamentos e enquadra-se de modo genial no movimento armorial de Ariano Suassuna, sem dúvida sua alma gêmea, e também no universo literário de Guimarães Rosa, o diplomata-sertanejo. Na medida em que se desenvolve a trama, fica patente que Elomar, Suassuna e Rosa transitam no mesmo bloco precioso e raro dos que amam o Brasil profundo.

É de enorme acerto a iniciativa de se reinventar o aparato instrumental, harmoniosamente integrada à concepção cênica de Heller-Lopes.

Enquanto me encantava com a qualidade da performance de João Omar ao violão, do Apollo Ensemble e do refinado arranjo de Henrique Gomide, lembrei-me de uma frase de Suassuna que mostra o caráter essencial da associação entre Suassuna, Rosa e Elomar: “Meio sério, meio brincando, comecei a dizer que tal poema ou tal estandarte de Cavalhada era ‘armorial’, isto é, brilhava em esmaltes puros, festivos, nítidos, metálicos e coloridos, como uma bandeira, um brasão, ou um toque de clarim. Lembrei-me, aí, também, das pedras armoriais dos portões e frontadas do Barroco brasileiro, e passei a estender o nome à escultura com a qual sonhava para o Nordeste. Descobri que o nome ‘armorial’ servia, ainda, para qualificar os ‘cantares’ do Romanceiro, os toques de violas e rabecas dos cantadores – toques ásperos, arcaicos, acerados como gumes de faca-de-ponta, lembrando o clavicórdio e a viola-de-arco da nossa música barroca do século 18”.

Num vídeo de 5 minutos sobre a ópera, material de divulgação, Joao Omar fala que ele e o pai sempre pensaram que “a melhor roupagem para uma ópera elomariana seria com um conjunto de música antiga”.  Elomar completa: “É uma história de nosso povo, tem muita inventiva minha e muita realidade”. 

P.S.: Apropriar-se da instrumentação à europeia numa ópera brasileira de raiz como o Auto da Catingueira é, digamos, uma deliciosa “vingança gentil”. Não resisto em contrapor este gesto a outro, do compositor argentino Mauricio Kagel, que o chamou de “amável vingança”: ele mostra, em Mare Nostrum, obra de 1978, uma tribo do Amazonas descobrindo e “libertando” o Mediterrâneo para, em seguida, convertê-lo impiedosamente a outros credos. Realiza o seu trabalho com o mesmo ímpeto, convicção e falta de respeito pelos aborígines demonstrados pelos conquistadores do passado, que fizeram a rota inversa, da Europa para as Américas. “Com certeza um europeu nunca ouviu falar de ‘descobrimento’ com tanta ênfase como nós, sul-americanos”, diz Kagel. O gesto de apropriação da roupagem instrumental barroca europeia pode bem ser visto como uma doce e bem engendrado acerto de contas.

Cena de 'Auto da Catingueira' [Divulgação]
Cena de 'Auto da Catingueira' [Divulgação]

 

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