Festival em Leipzig festeja o compositor Johann Sebastian Bach
LEIPZIG - Leipzig é uma cidade moderna com cerca de 600 mil habitantes, a 200km de Berlim. Importante centro econômico e comercial, com avenidas largas e arborizadas, em um primeiro instante a gente não se dá conta de que a cidade está intimamente ligada à história da música, com nomes como Telemann, Mendelssohn, Clara e Robert Schumann, Richard Wagner, que nasceu aqui, e Gustav Mahler, diretor da ópera entre os anos de 1886 e 1888. Mas a figura central da cidade é, claro, o compositor barroco Johann Sebastian Bach (1685-1750), um dos maiores gênios de todos os tempos. Como Kantor da Igreja de São Tomás, Thomaskantor, Bach viveu os seus últimos 27 anos na cidade, de 1723 a 1750.
O Kantor é uma espécie de diretor musical religioso, encarregado de todos os serviços musicais da igreja, desde o ensino de canto e música para alunos e membros do coro (o famoso coro de meninos Thomanerchor), a organização e supervisão da música dos cultos incluindo composições e arranjos, até a regência das apresentações musicais. Como Thomaskantor, Bach era responsável não apenas pelo serviço musical na Igreja de São Tomás (Thomaskirche), mas também na igualmente relevante Igreja de São Nicolau (Nikolaikirche) e em mais outras duas igrejas da cidade. Era muito trabalho!
É inacreditável a quantidade de música que Bach escreveu. Só de cantatas, em seu período de Leipzig, ele compôs mais de duzentas. Nos primeiros anos, de 1723 a 1725, ele criou três ciclos completos para praticamente todos os domingos e festas do calendário luterano, muitas vezes escrevendo mais de uma nova cantata por semana. E ainda sobrou tempo para as paixões, o Oratório de Natal, os estudos para teclado, as Variações Goldberg, a Oferenda Musical, a Arte da fuga... É realmente inacreditável!
Aproveitei a minha viagem à Europa para acompanhar os primeiros dias do Bach Fest Leipzig 2026, que desde o início do século passado é realizado anualmente para homenagear e divulgar o legado do mestre. Realizado pelo Bach-Archiv (Arquivo Bach) de Leipzig, a edição de 2026 tem como tema “Em diálogo” e se estenderá por 10 dias, de 11 a 21 de junho, com mais de duzentos eventos. Entre os destaques estão um ciclo de concertos com o cravista Mahan Esfahani, artista residente, e uma série em que o pianista András Schiff toca quatro recitais Bach com as Clavier-Übungen (Estudos para teclado) – 2026 marca os 300 anos da composição dessas obras.
Mas a principal programação do Bach Fest 2026 é o “TOP 50 – Cantatas Bach”. Trata-se de uma série com as 50 cantatas preferidas do público selecionadas a partir de uma enquete realizada no ano passado, com a participação de cerca de 8 mil votantes. (Cantata é uma obra para cantores, coro e orquestra, geralmente baseada em texto religioso, na qual árias se alternam com movimentos corais. Como nas paixões, as cantatas têm também recitativos, em que os solistas narram de forma cantada os acontecimentos.)
As obras estão sendo apresentadas em doze concertos nas igrejas Thomaskirche e Nikolaikirche, em ordem decrescente de classificação, portanto, da 50ª colocada até a vencedora. Para manter o suspense, o público só fica sabendo quais cantatas são executadas no momento de cada concerto.
O ciclo reúne alguns dos mais renomados intérpretes e grupos de música antiga da atualidade. Assisti às primeiras quatro apresentações da maratona TOP 50 e posso dizer que foi uma vivência musical absolutamente extraordinária.
Começou na sexta-feira, dia 12, na Thomaskirche.
Bom, você assistir às cantatas no lugar em que foram estreadas há mais de trezentos anos, junto à sepultura de Bach – ela está ali, em frente ao altar –, já é de arrepiar. E o que dizer da execução da orquestra, coro e solistas da Fundação J.S. Bach sob direção de Rudolf Lutz? Foi excelente, com orquestra, coro e solistas realmente fenomenais!
Na verdade, não houve apresentação que não fosse menos do que muito boa! No próprio dia 12, o segundo concerto foi na Nikolaikirche, com o coro e orquestra Amsterdam Baroque e solistas, sob direção de Ton Koopman. Os concertos números 3 e 4 foram no sábado, dia 13, com Solistas e Vox Luminis e, em seguida, solistas e Collegium Vocale Gent dirigidos por Phillipe Herreweghe, na Nikolaikirche e Thomaskirche, respectivamente (interessados podem consultar mais detalhes sobre os repertórios e intérpretes no site do Bach-Archiv – clique aqui para acessar).
As características das quatro apresentações que assisti foram similares, com instrumentos de época e um coro variando entre 16 e 20 vozes. Na Thomaskirche, os músicos ficavam sobre o coro alto, em frente ao órgão. Na Nikolaikirche, no piso baixo, em frente ao altar. Mas não se sabe com certeza onde exatamente o coro e os músicos se posicionavam na época de Bach, até porque o interior das duas igrejas sofreu alterações e reformas importantes no século XIX.
Um dos aspectos realmente surpreendentes é a ótima acústica das igrejas. De onde estive sentado, ouvi muito bem, com muita clareza e sem reverberações. As vozes brancas e luminosas dos solistas, os timbres incríveis de instrumentos barrocos como trompetes, trompas, tímpano, flautas doce, traverso, oboé d’amore, oboé da caccia, viola da gamba, órgão... – tudo concorreu para uma experiência de grande emoção.
Entre os coros, todos realmente muito bons, sobressaiu-se para mim o do Amsterdam Baroque. De tão coeso e consistente, realizando coloraturas magistrais, cada naipe parecia uma só voz.
Também o nível dos solistas foi muito bom. Todos, sem exceção, exímios cantores, com cuidada técnica vocal e ótima pronúncia do alemão. As orquestras igualmente tocaram em alto nível, enfrentando muito bem as dificuldades de afinação típicas dos instrumentos históricos. Só uma vez um oboé da caccia soltou um guincho estridente em meio a uma introspectiva ária da soprano, provocando risos na plateia. Nem por isso o músico deixou de ser calorosamente ovacionado ao final da apresentação.
Se fosse para escolher um dos quatro concertos, ficaria com o da Fundação J.S Bach de St. Gallen, na Suíça, dirigido por Rudolf Lutz. Como foi o primeiro concerto da série, o repertório contemplou as cantatas que no ranking ficaram no lugar 50 com 223 votos (O Ewigkeit, du Donnerwort BWV 20), no lugar 49 com 239 votos (Die Himmel erzählen die Ehre Gottes BWV 76) e no lugar 47 com 248 votos (Erfreut euch, ihr Herzen BWV 66.3). A apresentação teve ímpeto barroco e um incrível equilíbrio sonoro entre coro, orquestra e solistas. Juro que vi o espírito de Bach na Thomaskirche...
Coletiva de imprensa internacional – em alemão
Logo que cheguei a Leipzig, na quarta-feira, participei da coletiva de imprensa do Bach Fest 2026, realizada no Museu Bach, do outro lado do pátio da Thomaskirche. O museu está situado em uma das poucas construções que ainda mantêm a sua entrada original do século XVIII – ali morava uma família abastada, os Bose, que possivelmente era amiga da família Bach, que residia no prédio da escola Thomasschule, ao lado da igreja. Supõe-se, sem provas concretas, que Bach frequentava o Salão de Verão da casa, no segundo piso, onde se realizou a coletiva.
Além do intendente do Bach Festival Leipzig, Prof. Dr. Michael Maul, e de Harald Langenfeld, presidente do Conselho do Banco Sparkasse Leipzig, que é o principal patrocinador do evento, estiveram presentes o maestro Ton Koopman, o cravista iraniano-americano Mahan Esfahani, o maestro Phillipe Herreweghe, o Thomaskantor Andreas Reize e Konrad Hummler, presidente da Fundação J.S. Bach de St. Gallen, que nesta edição foi homenageada com a Medalha Bach 2026.
Chamou-me a atenção que todos fizeram as suas falas em alemão – inclusive Koopman, Esfahani e Herreweghe. Sendo um evento internacional, imaginei que seria em inglês. Não éramos muitos jornalistas, mas não sei se todos ali entenderam o que estava sendo dito. Fato é que, para falar de Bach em Leipzig, fala-se alemão!
Foi muito legal ver o entusiasmo e a admiração de todos ao se referirem ao grande mestre do barroco. Ton Koopman, que é o presidente do Bach-Archiv, chegou até a desdenhar – acredito que brincando, mas não tenho certeza – de Bruckner e Mahler: com um sorriso maroto afirmou que não havia obra maior do que a de Bach. Perguntado se, entre as cantatas, haveria algumas que fossem melhores do que outras, afirmou que não, que toda a sua obra, sem exceção, seria de uma construção artística absolutamente notável e perfeita, não havendo desníveis. Para Koopman, o fato de haver obras mais famosas do que outras deve-se unicamente ao gosto das pessoas, e não à sua qualidade artística.
Outra fala surpreendente foi a do presidente do Banco Sparkasse Leipzig (alô alô patrocinadores!!). Langenfeld, um senhor de cerca de 70 anos, falou de Bach com brilho nos olhos, dando um depoimento profundamente humanista. Ele disse que todos nós devemos nos solidarizar com os pobres e com os mais necessitados, que é um orgulho para o banco patrocinar o festival e que é preciso oferecer a todos o acesso à obra desse gênio de nossa civilização (não tive oportunidade de perguntar a ele como ele defende esse ideal perante os seus acionistas...).
András Schiff
Acompanhei no Bach Fest também dois recitais do ciclo do pianista húngaro András Schiff em comemoração aos 300 anos dos Estudos para teclado de Bach. Velho conhecido do público brasileiro (em 2012 foi o vencedor da categoria música de câmara / recital / coral do Prêmio CONCERTO), Schiff tocou por último na Sala São Paulo em 2023, onde também afirmou que Bach seria o maior compositor de todos os tempos (clique aqui para ler a crítica de Irineu Franco Perpetuo). Ele também está programado para voltar agora, no segundo semestre, dentro da Temporada Internacional da Cultura Artística.
Os recitais de András Schiff em Leipzig foram novamente impressionantes. Ele se apresentou na Sala do Gewandhaus, sede da orquestra de mesmo nome, um enorme prédio moderno de fachada envidraçada situado em um dos lados da ampla praça Augustusplatz, no centro da cidade, que do lado oposto ostenta o imponente edifício da ópera.
O Bach que sai das mãos de Ándras Schiff é música em sua mais profunda essência. Não é que seja racional ou frio, ao contrário: Schiff logra fazer cantar o mais intricado contraponto, destacando as diferentes vozes com incrível transparência em fraseados absolutamente orgânicos. Com profunda concentração e sem nenhuma afetação, o pianista coloca o foco inteiramente na música, fazendo com que cada nota ganhe a sua importância e função dentro do todo.
Ouvi lindas obras de Bach, todas pertencentes às coleções dos Estudos para teclado: as cinco partitas do Estudo I no primeiro recital e, no segundo, o Concerto italiano e a Abertura francesa (Estudo II) e as Variações Goldberg (Estudo III). Sempre com o mesmo rigor artístico, sem arroubos, com uma pulsação interior imperturbável – parecia que os dedos tocavam sozinhos, sem o menor esforço. András Schiff é mesmo um artista excepcional!
O pianista tinha a sua disposição, lado a lado sobre o palco, dois instrumentos de características sonoras diferentes, um Steinway e um Bösendorfer. O Steinway com um som mais denso e amplo, o Bösendorfer um pouco mais seco e brilhante. Com a minúcia, o requinte e o cuidado de um artesão, Schiff, dependendo do efeito desejado, optava por um ou por outro, alternando os teclados mesmo entre movimentos de uma mesma obra.
Não vi uma poltrona vazia na ótima Sala do Gewandhaus. E todas as 1900 pessoas em silêncio absoluto enquanto András Schiff dedilhava as obras-primas de Bach. Sim, foram momentos musicais muito especiais.
O Bach Fest Leipzig de 2027 já está marcado e acontecerá entre os dias 10 e 20 de junho. No centro da programação estará a comemoração dos 300 anos de criação da Paixão segundo São Mateus. A edição tem um tema bastante sugestivo: Passion!
E tem tudo para ser novamente à altura do merecimento do grande mestre que é Johann Sebastian Bach.
P.S.: No primeiro concerto da série TOP 50, vi Konrad Hummler, presidente da Fundação J.S. Bach de St. Gallen – que foi condecorada com a Medalha Bach 2026 – entrando no fim de uma das enormes filas que se formam nas diversas entradas da Thomaskirche. Cidadania republicana...
[Nelson Rubens Kunze assistiu aos concertos do Bach Fest 2026 com ingressos cedidos pelo Bach Archiv Leipzig.]
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