Em apresentação no Teatro Cultura Artística, o Danish String Quartet mostrou que é possível arejar o repertório do quarteto sem perder contato com a tradição
O fato de o quarteto de cordas ser, possivelmente, a mais tradicional formação de música de câmara não implica que os quartetos tenham que ser “caretas”. Nesta semana, no Teatro Cultura Artística, o Danish String Quartet mostrou que é possível arejar o repertório do quarteto sem perder contato com a tradição.
A primeira e mais tradicional metade do programa da última segunda-feira, dia 22, já trazia um rico diálogo entre diversas camadas temporais. Afinal, a primeira obra era a Suíte italiana, que o russo Igor Stravinsky compôs a partir de trechos de seu bailado Pulcinella – o qual, por seu turno, era uma reelaboração de temas que, na época (1920), julgavam-se serem de autoria de Giovanni Battista Pergolesi (1710-1736) – atribuições que posteriormente se revelaram espúrias.
Temos, então, um compositor do século XX fazendo versões “modernas”, para orquestra, de música do século XVIII. Depois, esse mesmo autor toma alguns temas do balé e os transforma em uma suíte para violino e piano. E, no século XXI, Rune Tonsgaard Sorensen, violinista do Danish, reinventa esta suíte para quarteto de cordas. Neste processo, a partitura vira um palimpsesto, no qual cada camada do texto vivifica a anterior e dialoga com ela. Não faz sentido indagar onde termina a criação “original” e onde começa o “arranjo”: grandes obras são justamente aquelas que se prestam a releituras cuja quantidade tende ao infinito, e a peça que marcou a guinada neoclássica na carreira de Stravinsky deu a impressão de que funcionaria em qualquer tipo de transcrição.
Casado com uma brasileira, o violista Asbjorn Norgaard apresentou a primeira parte do concerto em português simpático e idiomático. Da obra que a encerraria, afirmou que dizia “coisas graves, coisas importantes”, e que colocava “mais perguntas do que respostas”.
Afinal, tratava-se do Quarteto de cordas nº 16, op. 135, em fá maior – o último composto por Beethoven. Melômanos por vezes referem-se a ele como “quarteto Es muss sein”, devido à enigmática inscrição que o compositor colocou na partitura, no cabeçalho de seu derradeiro movimento: “Der schwer gefasste Entschluss. Muss es sein? Es muss sein! (A decisão tomada com dificuldade. Tem que ser assim? Tem que ser!)”.
Biógrafos assinalam uma anedota cômica como origem da epígrafe beethoveniana, e há quem considere o quarteto como uma espécie de “irmão espiritual” da Oitava sinfonia – um olhar retrospectivo a Haydn no final da vida do compositor, marcado pelo bom humor, e na mesma tonalidade de fá maior.
Nada, porém, é tão simples no Beethoven tardio. Marcado por uma dificuldade técnica por vezes imperceptível para o ouvinte, o quarteto traz uma ironia que, como nas obras literárias de Púchkin e Heine (contemporâneos mais jovens do compositor), pode ser atravessada por genuína melancolia. Como no pungente Lento assai, cantante e tranquillo, terceiro movimento da peça, em que o Danish String Quartet produziu uma atmosfera de encantamento contrito e meditativo. Novamente as camadas de tempo se entrelaçam: um compositor volta-se para a obra de seu professor para produzir uma partitura visionária que continua desafiando intelectualmente e estimulando os ouvintes e criadores do futuro.
A música nórdica comparece em arranjos sofisticados, e tocados com o mesmo apuro dedicado aos cânones do repertório clássico
Fez-se o intervalo, e veio o smörgasbord. Afinal, o Danish String Quartet não é um grupo globalizado e genérico, fast food que poderia ser consumido indistintamente em qualquer canto do planeta. Nutridos na dieta do classicismo austro-germânico, seus integrantes dedicam-se a diversos projetos fonográficos em que trazem a música tradicional e folclórica dos países escandinavos.
Medo: nem sempre crossover e bom gosto andam de mãos dadas. Medo: poderia ser um caça-níqueis. Mas não é nada disso. A música nórdica comparece em arranjos sofisticados, e tocados com o mesmo apuro dedicado aos cânones do repertório clássico.
Porque o Danish String Quartet soa como um matrimônio em que a intimidade traduz-se em cumplicidade – sem incorrer no tédio das relações que se estenderam demais. Quatro personalidades amalgamam-se em uma sonoridade bela e única – cuja identidade fica ainda mais clara quando os ouvimos na música da Escandinávia. Seja qual for o item do repertório, é tocado com a mesma elegância de arcos, a mesma inteligência no uso do vibrato – e o mesmo senso de estilo. Dependendo da ocasião, seus instrumentos podem soar como as cordas de tripa barrocas de Bach ou Biber em busca da espiritualidade, ou rústicas rabecas de festejos rurais – com direito a ruidosas e vigorosas batidas de pé por parte dos executantes.
Por sinal, Sorensen – que assumiu a função de “guia” da plateia na segunda parte do programa, com observações concisas e bem humoradas – chegou a empunhar no palco um hardingfele (ou Hardanger fiddle), instrumento tradicional norueguês de oito cordas de sonoridade cativante. Algo como as ervas que conferem à aquavita seu sabor único
Após generosas doses de Gammel Dansk musical servidas sob a forma de gigas e acalantos, o público foi mandado para casa com um bis singelo: Good Night and Farewell (Boa noite e adeus), canção faroesa de 1851, cujo arranjo (assim como outros tocados pelo grupo) se encontra disponível para venda no site do Danish String Quartet. Ao final da apresentação, os músicos disseram que esperam voltar ao Brasil. Pois serão muito bem-vindos!
Leia também
Notícias Manuscrito de Mozart é encontrado na Biblioteca Nacional de França
Notícias Linhas musicais transatlânticas: Brasil e Portugal em concerto da OSB, por Luciana Medeiros
Notícia Morre aos 91 anos a pianista Laís de Souza Brasil
Opinião Devoção Bach, por Nelson Rubens Kunze
É preciso estar logado para comentar. Clique aqui para fazer seu login gratuito.

Comentários
Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da Revista CONCERTO.