Criando oportunidades e orientando carreiras

por Nelson Rubens Kunze 10/06/2026

Com participantes de 59 países, Cascais Ópera consolida sua projeção internacional e amplia sua atuação como plataforma de desenvolvimento para jovens artistas líricos

LISBOA – Fui convidado para assistir à edição deste ano do Cascais Ópera – Concurso Internacional de Canto, realizada na cidade portuguesa de Cascais, na região metropolitana de Lisboa. O certame recebeu quase quinhentas inscrições provenientes de 59 países e, a julgar pelos comentários que circulavam entre artistas, jurados e profissionais do setor, consolidou-se definitivamente no calendário lírico internacional.

Concursos existem para descobrir talentos e premiar vencedores, é verdade. Mas o Cascais Ópera parece que pretende algo mais: criar oportunidades e orientar carreiras. Durante a sua realização, os jovens artistas não só disputam os prêmios – este ano apenas em dinheiro o certame distribuiu mais de 57 mil Euros, – mas travam contato com artistas consagrados, professores, diretores artísticos e gestores de algumas das principais instituições líricas da Europa. 

Conheci Adriano Jordão e Alexandra Maurício, que junto com o baixo-barítono russo Sergei Leiferkus são os fundadores do Cascais Ópera, durante o Festival Amazonas de Ópera (FAO) do ano passado. Eles então tinham viajado a Manaus para formalizar uma parceria entre o FAO e o concurso de canto. O acordo prevê que, a cada edição, um dos participantes do Cascais Ópera é premiado com um contrato para se apresentar em uma produção do festival amazonense.

Adriano Jordão é um pianista consagrado, nascido em Angola, com uma carreira internacional que o levou a alguns dos principais centros musicais da Europa, das Américas, da Ásia e da África. Paralelamente à atividade artística, o músico desempenhou funções de gestão cultural, tendo fundado o Festival Internacional de Música de Macau e dirigido festivais como os da Casa de Mateus, Sintra, Açores e Mafra. Entre os anos de 2004 e 2011 viveu em Brasília, como adido cultural de Portugal no Brasil. No Cascais Ópera, Adriano Jordão é responsável, junto com Leiferkus, pela direção artística.

A direção-geral do evento está a cargo de Alexandra Maurício, profissional com mais de trinta anos de experiência em gestão cultural. Entre suas diversas atividades, integrou as equipes da Expo’92 de Sevilha e da Expo’98 de Lisboa e foi diretora de produção do Centro Cultural de Belém.

“Claramente a missão do Cascais Ópera é a de captar talentos internacionais da ópera, jovens promissores, alunos que estejam eventualmente a acabar os estudos superiores e que ainda precisem de orientação, mas também jovens no início de carreira, a que eles possam ter oportunidades de trabalho, oportunidades de concertos, que possam ser ouvidos quando estão cá”, afirmou Alexandra nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian alguns minutos antes do início do concerto da final. “Ao estarem aqui na presença de membros do Júri que vêm ou da Staatsoper de Viena, ou de Munique, ou da La Monnaie, ou que vêm de Manaus – só para mencionar alguns –, é uma oportunidade que eles têm de audicionarem, de serem ouvidos. Portanto, só o estar aqui já é uma grande oportunidade.”

Além de servir de plataforma para a progressão na carreira dos jovens cantores, o Cascais Ópera também oferece masterclasses com artistas internacionais e um constante feedback do júri e dos professores, sobretudo para aqueles que eventualmente não passam à fase seguinte. “Portanto, eles quando vêm aqui têm um mundo de oportunidades, desde logo educação, evolução, contratos, prêmios monetários, novas oportunidades para entrarem em programas de jovens artistas”, disse Alexandra. “Um concurso é sempre um processo de orientação e um processo de aprendizagem estejamos em qualquer que seja a nossa fase de evolução da nossa carreira”.

Mas para Alexandra Maurício há também a ambição de projetar Portugal no circuito internacional da ópera: “Vamos colocar Portugal no seu devido lugar do ponto de vista cultural, do ponto de vista do passado riquíssimo que está ligado à ópera. Começar a pôr os holofotes internacionais também a focarem Portugal como local onde a ópera se constrói de outra forma”.

Também conversei com Adriano Jordão e perguntei-lhe sobre como avaliava a importância do Cascais Ópera. Após alguns segundos de silêncio, respondeu sorrindo: “Se perguntar a um pai como é que avalia os seus filhos? É muito difícil. É evidente que os pais sobreavaliam sempre o mérito dos filhos.” Fez nova pausa e completou: “Sei que aqui saiu melhor do que a encomenda. Isso com certeza. Tenho que dizer que saiu melhor do que a encomenda.”

Questionei-o ainda para saber por que um músico com uma carreira consolidada como concertista decidiu dedicar tanto tempo à produção e à gestão cultural. “Toda a minha vida, desde a adolescência, eu nunca fiz uma coisa só. Eu sou licenciado em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa. Na altura, pensava que estava a perder tempo na Faculdade de Direito. Hoje percebo que me fez muito bem, formatou a minha cabeça. Há uma maneira de raciocinar que é diferente do que eu teria se não tivesse a formação. E isso tem pouco a ver com a música. Percebe o que eu quero dizer? Sempre tive o vírus da produção.”

Quando cheguei a Cascais, no dia 4 de junho, o concurso acabava de encerrar a sua etapa de semifinais. Dos quarenta candidatos selecionados para o Cascais Ópera, restavam oito que fariam a grande final no dia 7, na Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Já os 12 semifinalistas que haviam sido desclassificados cantariam naquela noite, no Palácio da Cidadela, em uma homenagem aos 270 anos de Mozart. Todos os eliminados, além de feedbacks do júri, haviam tido a oportunidade de fazer masterclasses com alguns grandes nomes da ópera internacional (entre eles membros do júri como o baixo-barítono Sergei Leiferkus, a mezzo-soprano Catarina Sereno e as sopranos Juliane Banse e María Bayo).

A bela sala do Palácio, toda envidraçada com vista para o mar, recebeu cerca de 150 pessoas para a bela apresentação. Acompanhados ao piano, os jovens cantores apresentaram árias e passagens em conjunto, em uma mostra artística de alto nível.

Mas o momento culminante do Cascais Ópera foi a grande final, que aconteceu no domingo, dia 7, às 18h, no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Ali, os oito concorrentes se apresentaram em um repertório variado de árias, acompanhados pela Orquestra Sinfônica de Cascais sob direção do maestro Antonio Pirolli.

Já noticiei aqui quem foram os vencedores e, no geral, acho que o júri fez ótimas escolhas (clique aqui para ler). Além do extraordinário tenor croata Tomislav Jukić, que venceu o grande prêmio, achei especialmente bom o barítono sérvio Ljubomir Milanović, que ficou em segundo lugar. Fiquei impressionado com a qualidade de sua voz, a sua competência técnica e o senso de estilo de suas interpretações de Wagner (Tannhäuser) e Mozart (Don Giovanni).

Após dez dias de audições, concertos, masterclasses e encontros profissionais, o Cascais Ópera se firma como uma importante plataforma de desenvolvimento para a nova geração de cantores líricos de todo o mundo.

Para terminar, volto a Adriano Jordão, mas não para falar do Cascais Ópera. Quis saber dele como enxerga o Brasil, já que por muitos anos viveu em Brasília como adido cultural da Embaixada de Portugal. “Eu tenho imensa admiração pelo Brasil. E tenho os meus amigos brasileiros, que são o melhor que há. Era muito amigo do Nelson (Freire), muito amigo do (Antonio) Menezes. Eram os meus amigos, da minha geração. Cristina Ortiz, são todos que eu trato por tu, não é? Mas trato por tu muito antes de ser conselheiro cultural (em Brasília), trato pelo lado musical. Depois sou amigo-irmão da Myrian Dauelsberg, que é uma mulher importantíssima no meio, de modo que eu tenho uma ligação fortíssima ao Brasil. E um respeito muito grande pelo Brasil, em todos os pontos de vista.”

Concerto final do Cascais Ópera na Fundação Gulbenkian, em Lisboa (divulgação, Gonçalo Silva)
Concerto final do Cascais Ópera na Fundação Gulbenkian, em Lisboa (divulgação, Gonçalo Silva)

 

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