Pequeno roteiro para (tentar) entender o momento da música carioca

por Luciana Medeiros 04/02/2019

Como todo início de ano, as temporadas de música de concerto no Rio de Janeiro estão prestes a começar. Esse 2019, porém, apresenta um panorama nublado pela troca do governo estadual – o “dono” das duas mais importantes casas musicais da cidade, o Municipal e a Sala Cecília Meireles. O nevoeiro se adensa mais ainda pelo descarrilamento do Estado: governadores presos, Lei de Responsabilidade Fiscal, escândalos em sucessão na Assembleia Legislativa e uma circulação de bens e serviços prejudicada pela crise crônica – afinal, a cidade tem uma fatia expressiva de moradores ligados aos serviços públicos, ativos e aposentados. 

A cultura em geral perde amparo financeiro em momentos como esse. A música clássica e a ópera, em particular, que no Brasil dependem quase exclusivamente de investimentos públicos – diretos ou indiretos, através de renúncia fiscal – se estatelam. O labirinto no Rio de Janeiro é ainda mais complexo.

Theatro Municipal do Rio de Janeiro [Divulgação / Vânia Laranjeira]
Theatro Municipal do Rio de Janeiro [Divulgação / Vânia Laranjeira]

O quadro que se apresenta agora no Rio, com a eleição do antes desconhecido Wilson Witzel e suas propostas de choque de ordem, se relaciona estreitamente com um impulso de mudança alimentado na população descontente, que vem sofrendo com atrasos de salários e aposentadorias e desinvestimento geral. A questão é que, na Secretaria de Cultura, muito poucos quadros mudaram. À frente do Municipal e da Sala (esta, em caráter interino até agora) está Aldo Mussi: ex-subsecretário e ex vice-presidente do Municipal. Fernando Bicudo, presidente do Theatro em 2018, voltou agora para a Secretaria; na Sala, o braço direito de Mussi é a bailarina Barbara Lima, ex-diretora operacional do Theatro nas gestões de Lazaroni e Bicudo. 

Todos esses chegaram com André Lazaroni, por quatro anos Secretário de Esporte de Sérgio Cabral e, em 2017, à frente da Cultura e também acumulando a presidência do Theatro. De volta à Assembleia a pedido do ex-governador Pezão, em votação controversa que tentava reverter a prisão de Jorge Picciani (então presidente da casa), pronunciou inesquecível discurso em que confunde o dramaturgo Bertolt Brecht com o personagem humorístico da TV Bertoldo Brecha. Não voltou à Secretaria, mas lá deixou um imediato, Leandro Monteiro, egresso do Corpo de Bombeiros. Na equipe, como coordenador de relações internacionais, já estava Ruan Fernandes Lira, que concorreu em 2018 a deputado estadual e não se elegeu. Mas tornou-se o novo secretário de Cultura na gestão Witzel.

Lira, um mês depois da posse, parece começar timidamente a definir rumos para o Municipal e a Sala Cecília Meireles. Mussi, nascido em Macaé, cidade do litoral fluminense e formado em Artes Cênicas, afirma que a Sala ficará por cerca de seis meses sob sua direção provisória e que se está estudando uma alteração administrativa que a coloque no mesmo balaio do Theatro Municipal (atualmente, o teatro é uma fundação com link direto com a Secretaria, enquanto a Sala tem a Fundação Anita Mantuano, a Funarj, como intermediária).  

Sala Cecília Meireles [Divulgação]
Sala Cecília Meireles [Divulgação]

As temporadas dos dois palcos ainda não foram divulgadas. A mais importante novidade, por enquanto, é a vinda para o Theatro Municipal de Luiz Fernando Malheiro, hoje o principal regente de ópera do país, já nomeado diretor musical da casa lírica. Ele dividirá com André Heller-Lopes – este, ainda sem nomeação oficial, mas que responderia como diretor artístico – os rumos da programação. Heller-Lopes esteve no Municipal do Rio no mesmo posto em 2017.

Colocar a Sala e o Municipal sob a mesma direção não é uma ideia nova – pelo menos quatro administrações anteriores examinaram essa possibilidade. Juridicamente, elas não se comunicam e as fundações foram criadas por leis, ou seja: não há possibilidade de modificar a estrutura sem que novas propostas sejam votadas na Assembleia. O risco artístico é o de reduzir ou eliminar a saudável diversidade de curadorias visando a uma economia que se apresenta mínima. A Sala Cecília Meireles, um concert hall inaugurado em 1965, sempre foi dirigida por músicos (com exceção de um diretor da OSB, nos anos 1960), como a maioria pelo mundo.

Agora, é aguardar um pouco mais para analisar dotações diretas do estado para as duas casas e suas estratégias de captação de patrocínios. E para saber se haverá alguma mudança real com tanta figurinha repetida.