O pianista e maestro Ricardo Castro escreve sobre a experiência sociocultural do Neojiba, do qual é criador e diretor
A Orquestra Juvenil da Bahia, grupo de referência dos Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia (Neojiba), já na sua terceira geração, sendo a maioria dos seus músicos “crias” do programa, realiza este mês mais uma turnê internacional, a sétima em seus 11 anos de existência. Estaremos ao lado da lendária Martha Argerich em prestigiadas salas de concerto da Europa, como a Philharmonie de Paris, que já está com ingressos esgotados desde maio. Serão nove apresentações na Suíça, Itália e França, nas quais levaremos nossa mensagem a plateias acostumadas a aplaudir as melhores orquestras do mundo.
A conquista deste inédito prestígio internacional para uma orquestra juvenil brasileira é consequência de um árduo trabalho com base nas altas expectativas que depositamos em nossa juventude, mas não é este o objetivo que orienta as práticas do programa. Estar no Neojiba é antes de tudo defender uma causa. Acreditamos que, no Brasil atual, não há como justificar o investimento de recursos públicos em atividades artísticas que não estejam também profundamente inseridas no processo educativo. Além disso, observamos uma falha estrutural na implantação de práticas artísticas e, porque não dizer, na educação em geral em nosso país. Não investimos devidamente na base da pirâmide e o topo, que deveria servir de referencial, torna-se apanágio de uma elite cultural incapaz de sustentar o modelo na primeira crise econômica.
Por isso, desde o início do percurso formativo aplicamos no Neojiba o lema “aprende quem ensina”, que sugere um movimento em rede de jovens multiplicadores, fortalecendo a importância da difusão de conhecimento, da consciência social e do sentido de comunidade. Ser membro da Orquestra Juvenil da Bahia implica praticar regularmente atividades pedagógicas como monitores em núcleos do programa ou promover práticas artísticas em escolas ou instituições carentes. Esperamos assim colaborar para tirar o Brasil dessa guerra civil não declarada em que vivemos. Estamos perdendo rapidamente a capacidade de nos indignarmos com um cotidiano absolutamente fora do normal. Por exemplo, a existência de favelas em nossas cidades nunca deveria ser vista com normalidade. Defendo que certas ações formativas sejam desenvolvidas fora de comunidades carentes, pois tirar os jovens desse ambiente e mostrar que uma outra realidade é possível é mais eficiente para o desenvolvimento destes, do que incentivar a criação de programas sociais que mantenham seus integrantes exclusivamente no que chamaria de “gueto”.
Não é por outro motivo, senão o de proporcionar novas perspectivas a todos indistintamente, oferecendo acesso a um equipamento de alto padrão internacional, que inauguraremos, em breve, a nova sede do Neojiba no complexo de casarões do Parque do Queimado, no centro antigo de Salvador. Os espaços estão sendo reformados pela Consplan, com financiamento do BNDES, pela Lei Rouanet, e do Governo do Estado, com um custo global de R$ 13,5 milhões. O projeto arquitetônico é dos escritórios B-O-V da Suíça e SKE da Bahia, e o tratamento acústico é assinado pelo escritório japonês Nagata Acoustics, responsável por algumas das melhores salas de concerto do mundo. Será a primeira edificação com os padrões da empresa na América Latina. Trazer a Nagata Acoustics para o Brasil é um passo muito importante para o estabelecimento de padrões internacionais em instituições de educação musical. Até o final do ano terminaremos a primeira fase da obra, com a inauguração de uma sala de câmara e seis salas de ensaio. Tudo segundo as orientações da equipe de Yasuhisa Toyota.
Queremos com isso demonstrar que, em condições iguais, temos como equiparar nossos resultados aos obtidos pelos músicos na Europa ou Estados Unidos e até ultrapassá-los, como já tem acontecido na Coreia do Sul e na China. Almejamos também disseminar conhecimento e tecnologia, e incentivar, na Bahia e no Brasil, o investimento em equipamentos de formação musical com alto padrão de qualidade.
Enquanto nossa Orquestra Juvenil representa o Brasil que queremos e podemos, nossos 13 núcleos na Bahia continuam funcionando a todo vapor, com seus grupos orquestrais, corais, de sopros, de percussão e de cordas dedilhadas, todos aprendendo e ensinando um rico e variado repertório, conscientes de que o impacto social só acontece quando se busca a excelência. Se conseguirmos ter menos ego no que diz respeito a cada um inventar sua roda, mais investimento estatal e empresarial na nossa área, e lideranças competentes e dispostas a se dedicarem às ações de longo prazo, poderemos enfim mostrar que “a beleza salvará o mundo”.
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