Um factótum musical

por Leonardo Martinelli 01/12/2018

Trombonista, regente e compositor, o sueco Christian Lindberg rege a Osesp e mostra que há espaço para a diversidade em tempos de ultraespecialização

Ao abrirmos hoje o encarte de um CD, lermos um livro de história da música ou consultarmos as notas de programa durante um concerto, normalmente somos informados de que nomes como Monteverdi, Vivaldi, Bach, Mozart, Liszt – enfim, todos os consagrados mestres da música clássica – são “compositores”.

No entanto, não precisamos ir muito longe para descobrir que, mais que meros escrevinhadores de notas musicais, todos esses nomes desempenharam uma atividade musical mais ampla, que, além da criação musical, envolveu a prática instrumental, vocal, a regência de um grupo orquestral ou de um elenco de ópera, tudo sempre pontuado por muitas horas de docência. Ou seja, todos foram factótum, faz-tudo musicais, e por séculos essa foi a forma de atuação da maioria dos músicos profissionais: apenas o músico amador eventualmente se “especializava” em algo – por exemplo, se restringindo à prática de um único instrumento –, justamente por não dispor do tempo nem das habilidades necessárias para se aprimorar em outras atividades musicais.

Essa realidade se transformou após a Revolução Francesa, quando o modelo de ensino musical por meio do conservatório aos poucos substituiu a secular tradição oral, e as “lições de música” foram substituídas por aulas tematizadas por disciplinas, fatiando um conhecimento artístico antes apreendido de forma global. Na esteira disso tudo, surgiu a cultura da especialização, plenamente consolidada já nos primórdios do século XX, quando, salvo raros exemplos, regente é regente, cantor é cantor, instrumentista é instrumentista e compositor é compositor. Claro, muitos músicos não se deixaram limitar por esses rótulos, mas de fato poucos desenvolveram carreiras significativas em mais de um campo de atuação, o que faz do músico sueco Christian Lindberg caso raro.

Tendo iniciado a atividade profissional como trombonista de orquestra, ainda jovem se decidiu pela arriscada carreira solista com um instrumento que nem de longe rivaliza com a popularidade do piano ou do violino, por exemplo. A partir de então, uma sucessão de acasos, mesclados a um evidente e extenso talento musical, fez com que o músico pudesse desenvolver uma carreira verdadeiramente plural.

Christian Lindberg [Divulgação / Mats Bäcker]
Christian Lindberg [Divulgação / Mats Bäcker]

“Tudo isso ocorreu mais ou menos por acaso”, afirma Lindberg. “No fim da década de 1990, eu estava solando uma peça contemporânea complicada junto a uma orquestra e era muito difícil para o regente fazer as coisas funcionarem. Então eu o ajudei a liderar a orquestra a partir de meu próprio instrumento. A orquestra ficou tão impressionada que me convidou para regê-la, e depois daquele concerto me foi oferecido o cargo de diretor musical da Orquestra de Câmara Nórdica e do Ensemble Sueco de Sopros”, relata o músico, que neste mês interpretará junto à Osesp obras de Jean Sibelius e Leonard Bernstein, além de uma composição própria, Black Hawk Eagle, na qual atuará como regente e como solista ao trombone.

Sobre a atividade de compositor, o acaso se alinhou a um antigo projeto do músico. “Aos 17 anos, eu já havia estudado para me tornar compositor, mas aos 20 decidi me especializar no trombone. Quando eu tinha 39 anos, meu querido amigo e compositor Jan Sandström me convidou para compor uma peça inédita a partir de uma encomenda originalmente oferecida a ele. Foi meu primeiro opus, Arabenne. Na manhã seguinte à estreia, outras duas orquestras me fizeram propostas de encomenda, e desde então tenho uma fila de obras para compor”, revela Lindberg, que nos próximos meses deve entregar partituras para orquestras como a Sinfônica de Chicago, a Filarmônica de Rotterdam e a Orquestra Verdi de Milão.

Como é de pressupor, conciliar três carreiras em nível internacional não é tarefa trivial. “Inicialmente eu estava muito focado em me especializar ao trombone e tinha um pouco de receio do que aconteceria quando eu abrisse outras frentes e iniciasse duas novas atividades. Mas, para minha grande surpresa, me tornei um trombonista muito melhor quando passei a conduzir e a compor; logo, percebi que as três facetas são muito frutíferas umas para as outras.”

Além de ser conhecido pela multiplicidade de seu talento musical, Lindberg é notório no meio clássico por sua relação com a música contemporânea, tendo realizado a estreia mundial de dezenas de obras, tanto como solista como enquanto regente. Nesses termos, tece severas críticas à cultura dominante nas salas de concerto. “Penso que todo programa que uma orquestra sinfônica realiza deve ter ao menos uma peça escrita nos últimos cinquenta anos. Caso contrário, corremos o risco de encolher o público e termos uma audiência que só quer ouvir peças como O lago dos cisnes, de Tchaikovsky, ou a Sinfonia nº 40 de Mozart”, reflete o músico, que também tem suas ressalvas à faceta moderna da música de nosso tempo. 

“Acho que a especialização de compositores, maestros e instrumentistas não tem sido útil para a criatividade da programação. Os compositores tendem a se sentar nos próprios estúdios e a escrever músicas difíceis de ser executadas; por outro lado, maestros e instrumentistas se concentram demais na música histórica. Além disso, a racionalização do tempo de ensaio tornou quase impossível encontrar espaço para as orquestras aprenderem partituras contemporâneas. Portanto, quando uma nova peça é apresentada, ela é muitas vezes executada com pouco tempo de ensaio e, uma vez que poucos compositores hoje também atuam como regentes, ela precisa de um maestro que a tenha estudado muito e a conheça tão bem quanto o próprio compositor, o que raramente é possível. Na época de Beethoven, ele tocou, dirigiu e escreveu os próprios concertos para piano, o que, claro, tornou muito mais fácil seu sucesso junto ao público.” 


AGENDA
Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Christian Lindberg
– regente e trombone
Dias 6, 7 e 8, Sala São Paulo