Acervo CONCERTO: ‘Quadros de uma exposição’, de Modest Mussorgski

por Redação CONCERTO 31/08/2026

Texto de Lauro Machado Coelho publicado na seção 'Repertório' da edição de junho de 2000 da Revista CONCERTO

Nada do que o russo Módest Mússorgski compôs foi convencional ou previsível. Ele virou a mesa da ópera com partituras tão insólitas para a época, que seus próprios companheiros do Grupo do Cinco não as compreendiam. E os musicólogos suam a camisa tentando devolver à forma original peças que Rímski-Kórsakov "editou", de forma bem-intencionada, mas desastrada, acreditando estar "corrigindo" os erros do amigo. 

Mússorgski foi revolucionário também no que fez fora do campo da ópera, como o poema sinfônico para piano Kartínki s Vystavki (Quadros de uma exposição), em que o instrumento é usado de forma orquestral. Composto em 1874, homenageando a retrospectiva da obra de seu amigo, o pintor e arquiteto Viktor Hartmann, morto no ano anterior, trata-se mais de uma série de reflexões pessoais, de reações aos quadros expostos, do que da tentativa objetiva de descrevê-los. 

Quadros de uma exposição, deixados por Mússorgski em sua forma original – muito comum em recitais de piano – foi orquestrada várias vezes, por Júri Túshmalov (1891), pelo finlandês Leon Funtek (1921), por Leoniclas Leonardi (1924), por Serguêi Gortchakóv (1955) e, em 1983, pelo pianista e regente Vladímir Ashkenazy, que fez dela uma gravação. Mas a única orquestração que se firmou foi a do francês Maurice Ravel que, em 1922, a realizou a pedido ele Serguêi Kussevítski. Trata-se ele um brilhante exercício de transposição de um meio para outro. 

O tema do "Passeio", ora no trompete, ora na trompa, ou com vários instrumentos, representando o visitante, que vai de uma tela para a outra, liga os quadros. "Gnomus" é de tom demoníaco, inquietante. "O Velho Castelo" tem o tom grave e elegíaco que lhe é conferido pela mistura de fagote e saxofone. As brincadeiras infantis mostradas em "Tulherias" são leves e transparentes. Já os fagotes, cordas graves e a tuba desenham o passo pesado do "Bydlo", uma carroça puxada por bois. Depois vem o bem-humorado "Balé dos Pintinhos", com madeiras, harpa e pizzicato das cordas bem saltitantes. "Samuel Goldenberg e Schmuyle" é o retrato irônico de dois judeus, em que está latente todo o antissemitismo russo da época: cordas e madeiras em uníssono, com um tema judaico autêntico, para descrever o judeu rico e arrogante; soluços do trompete para o judeu pobre que lhe pede ajuda. "O Mercado de Limoges" tem a mão do Mússorgski que sempre soube representar animadamente a vida camponesa. Os metais dão o tom sinistro de "Catacumbas" e "Cum Mortuis in Lingua Mortua". As fantasmagorias folclóricas ela "Cabana de Baba-Yaga", a feiticeira dos contos de fada, em que a flauta dialoga com o contrabaixo e o contrafagote, preparam para o grande número final, "A Porta de Kíev", em que os sentimentos nacionalistas de Mússorgski – e o gênio de orquestrador de Ravel – se dão as mãos para dar aos Quadros um final eletrizante.

Acervo CONCERTO: Quadros de uma exposição

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