Acervo CONCERTO: A vida de Gustav Mahler

por Redação CONCERTO 11/04/2019

Texto de Leonardo Martinelli na Revista CONCERTO de março de 2010

O brasão da pequena cidade Kalište, situada no centro da República Checa, ostenta em seu centro uma enorme lira – antiga harpa grega, símbolo máximo da música – circundada por ramos de trigo. Esse mesmo instrumento está também presente na bandeira oficial da cidade, se é que assim podemos chamar o vilarejo que em seu último censo sequer contabilizou 400 habitantes. Entretanto, na segunda metade do século XIX, a cidade, então pertencente ao Império Austro-Húngaro sob o nome de Iglau, era um próspero centro de comércio de roupas. Naquela época, a família Habsburgo – que há séculos comandava o império – queria fortalecer sua presença ao leste e para isso estimulou o assentamento de comunidades judaicas de ascendência alemã no local. Com isso começaram a se instalar em Iglau uma série de instituições: um mercado (onde os camponeses locais comercializavam seus produtos), um posto do exército, uma igreja católica, uma sinagoga e um pequeno teatro de ópera, que abrigava um modesto conjunto sinfônico.

Esses foram os fundamentos que norteariam a obra de seu filho maior, e que veio a ser homenageado em sua flâmula atual: foi nessa cidade, em 7 de julho de 1860, que nasceu o compositor e regente Gustav Mahler. De ascendência judaica, o pai de Gustav, Bernhard, era proprietário de uma taberna e fabricante de bebidas, e sua mãe, Marie, filha de um pequeno fabricante de sabão. Deve ter causado profunda impressão ao menino o ambiente musicalmente agitado de Iglau, onde teve suas primeiras lições com membros da orquestra do teatro e na escola católica que frequentava. Já aos dez anos era tratado como a criança-prodígio (Wunderkind) da cidade. Assim que seu talento musical ficou patente e sua educação formal foi suficiente (Gustav era um aluno mediano na escola), seu pai autorizou uma audição com Julius Epstein, um patrício que lecionava piano no Conservatório de Viena. Ali o jovem Mahler ingressou em 1875 para estudar piano, ao mesmo tempo em que se dedicava com diligência ao estudo das disciplinas típicas do currículo de um compositor, matriculando-se em seguida na Universidade de Viena. Foi nesse período que se familiarizou com as obras de Wagner e Beethoven, os dois pilares de sustentação de sua futura escrita orquestral (que deve muito também à convivência que teve com o compositor Anton Bruckner). Como trabalho de conclusão de curso, compôs um scherzo para quarteto de cordas e piano, cuja partitura se perdeu.

Na Viena da década de 1870, Mahler criou os elos que fariam da cidade seu grande objetivo de vida. Em seus anos de formação, circulavam nos concertos figuras como o compositor Johannes Brahms e o crítico Eduard Hanslick. Entre seus colegas estavam jovens compositores como Hugo Wolf e Hans Rott. Decidido a seguir a carreira de compositor, por duas vezes Mahler submeteu, sem sucesso, suas obras para o Concurso Beethoven (em uma delas, Das klagende lied), na época uma espécie de trampolim para jovens compositores vienenses. Na impossibilidade de ganhar a vida com sua criação, Mahler viu na regência – até então uma atividade que tratava de forma apenas trivial – um meio de sobrevivência, e só muito posteriormente um meio de difusão de suas obras.

Em vida, a fama de Mahler esteve sempre associada às suas atividades como regente de ópera (seu lado compositor demorou a ser aceito por seus contemporâneos), e não deixa de ser curioso o fato de ele jamais ter escrito e nem sequer esboçado uma. Tendo iniciado sua carreira de regente em um pequeno teatro de variedades numa colônia de repouso perto de Linz, na Áustria, gradualmente foi percorrendo postos melhores em teatros de ópera de diferentes cidades do Império, tais como Laibach (atual Ljubljana, entre 1881-82), Olmütz (1883), Kassel (1883-85) e Praga (1885-86), até chegar em Leipzig (1886-88), na Alemanha, um dos mais intensos centros musicais da Europa. Ali, paralelamente às atividades de regente, Mahler envolveu-se na conclusão da ópera cômica Die drei Pintos, de Carl Maria von Weber, com cuja viúva, Marion, viveu a primeira de suas histórias de amor.

O sucesso de Mahler como regente residia em sua capacidade em reestruturar a parte musical de um teatro de ópera (orquestra, coro e solistas), o que resultava em um aumento de receitas. Para isso, Mahler estabelecia junto à direção dos teatros e aos músicos uma relação comumente relatada como ditatorial, fato que ajudava a alimentar o sentimento antissemita em torno de sua figura. Relata-se que, certa vez, a equipe do teatro de Hamburgo chamou uma escolta policial para acompanhar Mahler até sua casa, pois um flautista, que havia sido especialmente humilhado por ele em um ensaio, esperava-o na saída do teatro, junto com outros amigos, para acertar as contas com o poderoso maestro...

Quando a situação em Leipzig ficou insustentável, Mahler fez uma temporada de sucesso na ópera de Budapeste (1989-91), cidade na qual estreou sua Sinfonia nº 1, recebida de forma um tanto apática pela crítica e pela audiência. Porém, mais uma vez os atritos com a orquestra e a direção do teatro fizeram-no optar por uma longa temporada em Hamburgo (1891-97). Com um posto mais confortável e rentável, foi nessa época de sua vida que passou a se dedicar de forma mais sistemática à composição. A partir desse momento, todo verão o compositor alugaria uma residência em algum lugar isolado da Áustria para hospedar-se e a seus familiares (em especial, suas irmãs e agregados), junto ainda com uma pequena cabana, de uso exclusivo, onde durante o dia ele se retirava com suas partituras e compunha por horas a fio. Surge então a figura do Sommerkomponist (compositor de veraneio). Foi nessas temporadas que Mahler escreveu a maior parte de sua obra.

Apesar de sua posição em Hamburgo ser relativamente boa, Mahler jamais perdeu Viena de vista e, quando o posto de mestre de capela da corte austríaca surgiu em seu horizonte, ele teve que tomar uma das mais radicais decisões de sua vida, pois em um cargo oficialmente ligado a uma corte católica era então inadmissível a presença de um judeu. Em 23 de fevereiro de 1897, ainda em Hamburgo, Mahler converte-se ao catolicismo romano. Em seguida, ele foi contratado por Viena, e poucos meses depois, promovido, assumindo a direção da Hofoper (hoje a Ópera Estatal de Viena) e de sua orquestra, a Filarmônica de Viena.

O retorno a Viena marcou o auge da vida e da carreira de Mahler. Como regente, seu trabalho operístico era visto como único e revolucionário, ao insistir em uma união mais verossímil entre a música e a cena. Como compositor, gradualmente suas obras passaram a ser mais executadas, ao mesmo tempo em que dava cabo de novos projetos. Na vida pessoal, em 1902, casa-se com Alma, compositora, filha do afamado pintor Emil Schindler e na época conhecida como “a” femme fatale da alta sociedade austríaca. Com ela Mahler teria duas filhas, Anna e Marie (essa última faleceria ainda criança). Porém, o desgaste da relação com a geniosa Alma (culminando no adultério de Alma) e o aumento de sua agenda como compositor fizeram com que Mahler pouco a pouco se distanciasse de suas obrigações do cotidiano.

Quando, mais uma vez, a situação tornou-se insustentável, Mahler aceitou o convite para reger nos Estados Unidos, para onde diversos músicos europeus iam com o objetivo de fazer pequenas fortunas em um curto espaço de tempo. Em 1907 ele partiu para sua primeira viagem a Nova York, onde regeu a filarmônica local e diversas produções do Metropolitan Opera House, além de estrear em solo norte-americano sua Sinfonia nº 2. Depois de um breve retorno à Europa, ele volta para os Estados Unidos, onde rege várias temporadas de sucesso, ao mesmo tempo em que protagoniza um embate musical com o regente italiano Arturo Toscanini. Porém, com a saúde debilitada por conta de uma endocardite, na época incurável, retorna ao velho mundo em fevereiro de 1911, para morrer poucos meses depois em sua querida Viena, em 18 de maio.

Se em vida Mahler jamais foi reconhecido por suas composições, justiça seria feita após o final da Segunda Guerra Mundial, com o fim das políticas antissemitas na programação das orquestras europeias. Foi a partir da década 1960 que suas sinfonias e ciclos de lieder sinfônicos foram finalmente descobertos, e sua difusão impulsionada pela ascensão da indústria do disco clássico, integrando de forma definitiva o cânone das principais orquestras do mundo.

Gustav Mahler [Reprodução]
Gustav Mahler [Reprodução]

 

Linha do tempo

1860
Gustav Mahler nasce em 7 de julho em Iglau (atual Kalište, República Checa), filho de uma família de comerciantes judeus.

1874
Nasce em Viena o compositor Arnold Schönberg, de quem Mahler posteriormente defenderia os primeiros experimentos atonais.

1875
Ingressa no Conservatório de Viena, onde tem aulas de piano e composição.

1885
Compõe os Lieder eines fahrenden Gesellen, dedicados a Marion von Weber, viúva de Carl Maria, com quem Mahler teve um relacionamento.

1888
Termina de compor sua Sinfonia nº 1 que no ano seguinte é estreada em Budapeste. Começa em seguida a compor sua segunda sinfonia, “Ressurreição”. Muda-se de Leipzig para Budapeste.

1891
Mahler radica-se em Hamburgo e no ano seguinte começa a escrever simultaneamente a terceira e a quarta sinfonias, em sua cabana de verão.

1899
Sigmund Freud publica em Viena a obra A interpretação dos sonhos, marco da psicanálise.

1902
Casa-se com Alma Schindler, compositora, filha do pintor Emil Schindler e 20 anos mais nova que Mahler. Nesse mesmo ano nasce sua filha Marie.

1904
Conclusão da Sinfonia nº 6 e de Kindertotenlieder, iniciada três anos antes. Nasce sua segunda filha, Anna. Morre o crítico musical Eduard Hanslick, autor de O belo musical.

1907
Termina a Sinfonia nº 8, conhecida como a “Sinfonia dos mil”. Sua filha Marie morre aos cinco anos, vítima de difteria. Faz sua primeira viagem aos EUA.

1908
Começa a compor Das Lied von der Erde e a Sinfonia nº 9.

1910
Em Nova York, esboça sua Sinfonia nº 10, que, porém, ficou inconclusa.

1911
Morre em Viena, vítima de uma endocardite aguda, e é sepultado no cemitério Grinzinger.