Por Marcela Benvegnu [É jornalista, pesquisadora de dança, gestora e psicanalista. É superintendente de Desenvolvimento Institucional da São Paulo Cia de Dança e da São Paulo Escola de Dança. Mestre em Comunicação e Semiótica (PUC), Master em Mídia e Comunicação (University of California) e em Gestão de Negócios (BBI Chicago)]
Alaor Ferreira, 71 anos, administrador de empresas, de São Paulo. Lu Fernandez, 64, empresária, do Rio de Janeiro. Marco Caldeira, 61, dentista, de Goiânia. Frann Lima, 52, terapeuta, do Tocantins. Fabíola Cardoso, 60, servidora pública, de Vitória. Ingara Dantas, 50, bancária, de Salvador. Eles vivem em diferentes regiões do país, seguiram trajetórias profissionais distintas e nunca se encontraram. O que os une é um hábito que transformou suas vidas na fase adulta: a dança.
Seja no balé clássico, no jazz, no sapateado, na dança de salão, nas danças urbanas ou na dança do ventre, um número cada vez maior de adultos tem encontrado nos passos e na música muito mais do que uma atividade física. Em um país que envelhece rapidamente, a dança se consolida como uma prática que alia saúde, bem-estar, convivência e expressão artística. Mais do que aprender uma sequência de dança, esse público busca movimento, autoestima, novas conexões e qualidade de vida, provando que nunca é tarde para descobrir um novo ritmo e, muitas vezes, uma nova forma de viver.
Dos mais diferentes estilos e regiões do país, as histórias têm algo em comum. “A dança me trouxe autoestima, confiança, novos vínculos e a certeza de que sempre é possível aprender e recomeçar”, resume Lu Fernandez, do Rio de Janeiro. Aos 60 anos, ela realizou um desejo guardado por décadas ao iniciar, pela primeira vez, aulas de balé clássico. “Eu sempre admirei o balé, mas acreditava que aquilo não era para mim. O que começou como uma experiência pessoal acabou mudando o rumo da minha vida”, conta. Hoje, à frente do movimento Ballet aos 60®, incentiva outras pessoas a romperem a ideia de que existe idade para começar.
Lu diz que buscava fazer algo por si, aprender uma nova habilidade e experimentar um sonho que parecia distante. “Existe uma combinação de disciplina, arte, música e emoção que me encanta profundamente. Cresci em uma realidade em que fazer balé não era uma possibilidade e acredito que a dança para adultos ainda enfrenta preconceitos. Durante muito tempo, criou-se a ideia de que dançar era algo reservado às crianças ou aos futuros profissionais. Felizmente, isso está mudando. Cada vez mais pessoas procuram a dança por prazer, saúde, bem-estar, expressão artística e realização pessoal. A arte não tem prazo de validade.”
Quando Frann Lima tinha 12 anos, cuidava do bebê de uma vizinha e usou o dinheiro que recebia para pagar dois meses de aulas de jazz. Quando o trabalho terminou, a dança ficou para trás. Quatro décadas depois, ao assistir a uma apresentação da sobrinha no Balé Popular do Tocantins, decidiu voltar. Primeiro procurou aulas de ioga, depois encontrou o jazz. Hoje frequenta aulas cinco vezes por semana e incorporou o balé clássico e o sapateado à rotina. “Muitas mulheres ainda escutam frases como ‘você já é velha para isso’ ou ‘está sendo ridícula’. Outras sequer acreditam que merecem viver esse prazer. Precisamos mudar essa realidade.”
Depois de apenas um ano de aulas, Frann subiu ao palco pela primeira vez. “Participar de um espetáculo foi um dos maiores desafios da minha vida. Conhecer melhor minhas capacidades motoras, fisiológicas e emocionais é experimentar uma verdadeira saúde plena, especialmente em um tempo em que a saúde emocional é tão necessária.”
A história de Ingara Dantas também começou em uma plateia. Ao assistir a uma apresentação da filha, decidiu experimentar aulas de jazz dance. Desde 2009, a atividade faz parte da sua rotina. “Vejo a dança como um grande incentivo ao movimento, ao estímulo da mente, à socialização e ao contato com a arte. Ela me trouxe consciência corporal, reduziu minhas tensões, melhorou minha postura e fortaleceu minha autoestima.”
DANÇA E SEUS EFEITOS | Mais do que uma manifestação artística, a dança é reconhecida pela ciência como uma prática capaz de promover benefícios físicos, cognitivos, emocionais e sociais ao longo da vida. Contribui para a saúde cardiovascular, melhora o equilíbrio, a flexibilidade, a coordenação motora e a força muscular. Também estimula a criatividade, reduz o estresse, fortalece a autoestima e favorece a criação de vínculos sociais.
Uma revisão sistemática publicada em 2024 na revista PLOS ONE, que reuniu estudos com 1.259 adultos acima dos 40 anos, concluiu que a prática melhora o equilíbrio, a mobilidade, o controle postural e a qualidade de vida. Os pesquisadores observaram ainda que os participantes aderiram com mais facilidade às aulas de dança do que a programas convencionais de exercícios e fisioterapia, indicando que a combinação de música, movimento e convivência torna a atividade mais prazerosa e sustentável ao longo do tempo.
Foi exatamente isso que aconteceu com Marco Caldeira, 61 anos. Dentista em Goiânia, ele decidiu experimentar aulas de dança de salão depois de encontrar um anúncio no Facebook, há cerca de um ano. “Fui uma criança sem acesso à dança. Hoje faço aulas quatro vezes por semana e posso dizer que ela me tirou da depressão. Trouxe alegria, disposição e novos amigos.” Já Fabíola Cardoso conheceu a dança ainda na infância, quando foi matriculada no balé para corrigir a postura. Passou pelo balé clássico, jazz e dança contemporânea, mas interrompeu as aulas para se dedicar à maternidade. Foram mais de duas décadas priorizando os filhos. Aos 55 anos, um anúncio de audição despertou novamente a vontade de dançar. “Juntei o desejo com a coragem”, resume. “Já aposentada, comecei uma nova fase da minha vida e estabeleci uma relação mais madura e consciente com a dança. Foi um reencontro com a minha essência. Não são apenas os movimentos. As músicas, as coreografias e o convívio social se tornaram elementos terapêuticos na minha vida.” Hoje ela faz quatro aulas semanais de balé, além das aulas de jazz.
Com Ana Flávia Santos Vieira, 40 anos, professora de inglês em Santa Luzia, Minas Gerais, a decisão amadureceu ao longo dos anos. Encantada pela dança do ventre desde que conheceu a modalidade e inspirada pela novela Salve Jorge, ela finalmente começou as aulas no ano passado. “Faço aulas uma vez por semana e sinto muita falta quando não consigo ir. A dança me ensinou a valorizar meu corpo e a minha feminilidade.”
Entre as modalidades que mais crescem entre os adultos estão também as danças urbanas, durante muito tempo associadas quase exclusivamente aos jovens. Em São Paulo, a advogada Cinthia Sakamoto, 53 anos, descobriu essa possibilidade depois de acompanhar as filhas na escola de dança. O que começou como diversão rapidamente virou rotina: hoje frequenta aulas quatro vezes por semana e define a experiência como uma espécie de meditação em movimento. “É o momento em que consigo reunir presença física, mental e emocional. A dança me trouxe disciplina, flexibilidade, bom humor e uma enorme sensação de realização.”
A trajetória de Alaor Ferreira seguiu um caminho diferente. Formado em educação física e administração, ele passou anos dedicado às artes marciais, à ginástica aeróbica e sempre acompanhou a irmã nas aulas de balé quando ambos eram crianças. Apaixonado pela música negra americana, encontrou nas danças urbanas um desafio que combina ritmo, coordenação e raciocínio. Hoje, aos 71 anos e com duas próteses de quadril, frequenta aulas três vezes por semana. Para ele, a dança foi decisiva para recuperar a destreza dos movimentos e manter o cérebro em constante atividade. “Acompanhar a evolução das coreografias exige atenção, memória e raciocínio. Aprender novos passos é um exercício permanente para o corpo e para a mente.”
O MERCADO E OS PROFESSORES | O crescimento da procura por aulas de dança entre adultos também vem transformando o mercado. Escolas ampliaram turmas, criaram metodologias específicas e passaram a investir na formação de professores preparados para atender alunos com diferentes objetivos, históricos e condições físicas.
Para a professora de danças árabes e ciganas Maryh Zahar, 43 anos, de Chapecó, Santa Catarina, ensinar adultos vai muito além da técnica. “Mais do que ensinar movimentos, trabalho autoestima, autoconhecimento, expressão corporal e bem-estar. Cada aluna chega com sua história, seus desafios e seus sonhos, e a dança se torna uma ferramenta de transformação.” Essa atenção às necessidades do público adulto também orienta o trabalho da professora de sapateado Xênia Skeff, 52 anos, de Fortaleza, Ceará, com seus adultos. “Os adultos aprendem com mais consciência, mas muitas vezes com mais inseguranças. Eles gostam de perceber a própria evolução, então estabeleço objetivos claros e uso uma linguagem direta, motivadora e sem julgamentos.”
Na Bahia, o professor de jazz dance Michael Costa Cavalcanti, 45 anos, incorporou conhecimentos de anatomia, cinesiologia e biomecânica para atender esse público. “Costumo iniciar as aulas com um trabalho de condicionamento físico, geralmente no chão, para preparar corpos que chegam tanto do sedentarismo quanto de uma rotina intensa de trabalho. Também ofereço adaptações para quem tem limitações físicas ou alguma patologia. Esses corpos carregam histórias, por isso os estímulos, as orientações e o ritmo do aprendizado precisam ser diferentes dos utilizados com crianças.”
Quem também percebe mudanças no perfil dos praticantes é Marcelo Eidy, 44 anos, profissional de marketing e fundador de uma escola de dança de salão em São Paulo, que reúne mais de mil alunos nos cursos de forró e zouk. “A ideia sempre foi desmistificar a imagem de que dança de salão é coisa de gente ultrapassada. O adulto quer aprender rápido, mas também quer se divertir. Nosso maior desafio é fidelizar esse aluno, porque ele tem muitas opções.”
Para Marcia Ylana, 36 anos, professora de balé para adultos e dona de uma escola em São Paulo, o crescimento desse mercado representa uma mudança importante na forma como a sociedade enxerga a dança. “Como acontece em todo mercado em expansão, existe o risco da massificação. Em alguns casos, vejo adultos executando atividades para as quais ainda não estão preparados, muitas vezes por falta de uma condução pedagógica consistente. Ainda precisamos discutir mais profundamente quais são as demandas específicas do corpo adulto e quais adaptações são necessárias para que o aprendizado aconteça de forma segura.” Para ela, uma mudança já é irreversível. “Aos poucos estamos compreendendo algo muito importante: dançar não tem idade. Existe uma dimensão da dança que vai além da performance. Ela pertence a todos nós.”
Em comum, Alaor, Lu, Frann, Marco, Fabíola, Ingara, Ana Flávia e Cinthia não compartilham apenas o gosto pela dança. Eles representam uma geração que desafia a ideia de que existem sonhos, aprendizados ou palcos reservados apenas à juventude. E não estão sozinhos: cresce no Brasil o número de escolas, companhias e festivais dedicados a bailarinos adultos e a melhor idade. O que antes soava como casos isolados hoje ganha corpo e promete se espalhar ainda mais nos próximos anos. A pergunta não é mais se dá para começar tarde. É até onde essa geração ainda vai chegar.
QUER COMEÇAR A DANÇAR? | Hoje existem escolas de dança, academias, centros culturais, projetos públicos e iniciativas comunitárias que oferecem aulas para adultos em diferentes modalidades e níveis de experiência. Ao escolher um deles, vale observar a formação dos professores, a existência de turmas específicas para adultos e uma proposta pedagógica que respeite diferentes corpos, ritmos e objetivos. Mais do que aprender passos, o importante é encontrar um ambiente acolhedor para descobrir o prazer de dançar. Elencamos abaixo alguns projetos:
São Paulo Escola de Dança | Oferece aulas gratuitas duas vezes por semana nos estilos de jazz dance, danças urbanas, dança de salão e dança contemporânea para maiores de 13 anos, mediante processo seletivo semestral (clique aqui para saber mais).
Centro Cultural São Paulo | Oferece uma programação contínua de oficinas e aulas de dança gratuitas, que incluem aulas de danças urbanas, contemporânea, ritmos caribenhos e o projeto Longevidança Ballet 60+, com inscrições semanais ou por módulo feitas diretamente no site oficial do CCSP (clique aqui para saber mais).
Ritmos do Vale | Programação noturna gratuita de dança no Centro histórico de SP: charme, hip-hop, forró, samba-rock com o projeto Groove 011 e programação variável aos sábados e domingos (clique aqui para saber mais).
Passos ao Ar Livre | Parque na zona Leste de SP (Penha/Cangaíba) com aulas gratuitas de jazz, balé e zumba. Inscrição feita no site da secretaria do centro esportivo do parque (clique aqui para saber mais).
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