Linhas musicais transatlânticas: Brasil e Portugal em concerto da OSB

por Luciana Medeiros 22/06/2026

Há que se reconhecer: os laços históricos que unem Brasil e Portugal não se traduziram em uma troca na música de concerto. O Brasil, pelo menos, apesar de a corte de d. João VI ter chegado em 1808 cercada de música, pouco conhece dos compositores portugueses, mesmo os contemporâneos. A proximidade certamente seria não apenas proveitosa artisticamente, mas importante como mapa dos marcos da cultura luso-brasileira, em suas diferenças e semelhanças.

É com esse espírito que a Orquestra Sinfônica Brasileira faz, hoje e amanhã, na Sala Cecilia Meireles, o concerto da sua série Mundo dedicado a Portugal, tendo como convidada a soprano portuguesa Carla Caramujo, uma das mais importantes e ativas cantoras da Europa.

O programa começa com a Abertura Folclórica (1954) de Mario Tavares (Natal, 1928-2003); segue com Cantares, de Ronaldo Miranda, peça de 1987, sobre poema de Walter Mariani; com a ária C’era una volta un principe, da ópera O guarani, de Carlos Gomes, e encerra a primeira parte com Vida e milagres de Dona Isabel, do lisboeta contemporâneo Alexandre Delgado. A segunda parte traz a Sinfonia nº 3 de Joly Braga Santos. As peças de Delgado e de Braga Santos ganham a primeira audição no Brasil. A regência é do argentino Javier Logioia.

“São várias as linhas transatlânticas que amarram esse repertório”, explica o curador artístico da OSB, o compositor João Guilherme Ripper. “A ideia é colocar em diálogo e até em contraste. Carlos Gomes, nosso maior compositor de ópera, formou-se na Europa e apresentou o Guarani em Lisboa; Mario Tavares usa, no segundo tema, uma espécie de cantiga de roda bem brasileira; na sinfonia de Joly, um tema alentejano percorre a obra. Cantares, de Ronaldo, tem harmonia muito modal, renascentista, e Joly também utiliza largamente uma harmonia voltada para o modalismo.” Ripper localiza uma “segunda onda do nacionalismo que tem procedimentos melódicos e ritmos muito interessantes que, de alguma forma, se aparentam. com o que o Joly Braga Santos estava fazendo em Portugal”.

Delgado, nascido em 1965, foi aluno de Joly (1924-1988), e Ripper aponta a influência estética do mestre; a obra em torno da Rainha Santa. Isabel de Aragão (1271-1336), composta sobre uma narrativa do século XV, foi escrita especialmente para Carla. “Carla é uma das maiores cantoras portuguesas e eu queria exatamente que ela cantasse obras daqui e de lá.”

Se a ponte Brasil-Portugal na música de concerto tem crescido, isso se deve em parte à ação de Carla Caramujo, nos dois países. “E eu tenho o maior prazer em levar a música além de fronteiras. Carlos Gomes é um herói, tenho uma admiração enorme pela obra dele”, diz a soprano, que nunca cantou O guarani inteiro, mas, num concerto em Milão, interpretou várias de suas árias.

“Acho o libreto extremamente inteligente, independentemente da questão polêmica nos dias de hoje, dos exploradores que invadem o habitat destas pessoas que já viviam na selva; mas também expõe a maldade humana dos dois lados, o lado romântico, como estava muito em voga na época, do encontro de duas almas puras, de civilizações, de culturas.”

Cantares, de Miranda, Carla interpreta pela primeira vez. E com respeito ao sotaque brasileiro. “No ensaio, voltada para os músicos, senti um carinho enorme da orquestra, talvez pela minha interpretação, mas também porque a música é extremamente bela, e o poema é lindíssimo."

A peça de Delgado foi uma encomenda da Orquestra Clássica do Centro, de Coimbra, com estreia em 2019, cantada por Carla. “O texto é num português com arcaísmos e enaltece as virtudes humanas dessa mulher jovem, mas muito sábia, generosa, muito conciliadora. A música do Alexandre é muito pictórica. É um grande desafio vocal e um prazer. Ela é bastante difícil de cantar, mas é belíssima.”

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A soprano Carla Caramujo [Divulgação/Ana Castro]
A soprano Carla Caramujo [Divulgação/Ana Castro]

 

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