É nóis na fita, ou Todo mundo artista em 2020

por João Marcos Coelho 22/11/2012

O sociólogo francês Pierre-Michel Menger dedica, há cerca de duas décadas, suas pesquisas ao tema. Como ele mesmo teve sólida formação musical, é até certo ponto natural que esta arte lhe forneça modelos e propicie deduções. Assim, depois de O Paradoxo do Músico (1983) e de Retrato do artista enquanto trabalhador (2003), o sociólogo reuniu os principais artigos dos últimos anos no imponente  O Trabalho criador – realizar-se na incerteza (Ed. Gallimard, 2009). Em quase 700 páginas e 13 capítulos que podem ser lidos isoladamente, propõe-se a “explicar as particularidades [do trabalho artístico] por meio de um princípio que unifica a análise e a compreensão: o princípio da incerteza. A hipótese é simples: a atividade do artista caminha seguindo um curso incerto, e seu final não é nem definido nem assegurado”.

 

Mas hoje quero chamar a atenção para um outro artigo dele, intitulado “Um passo para a utopia” e incluído no volume coletivo Artistes 2020 – Variations Prospectives, igualmente de 2009. Menger faz um exercício de futurologia superinteressante. Tenta, a partir de suas consistentes pesquisas, imaginar a situação do artista daqui a dez anos.

Abaixo, os tópicos mais instigantes de sua afiada “bola de cristal”, que dão o que pensar a nós, profissionais envolvidos com a música:

Fim do filtro seletivo na música e na dança – o rigor da formação inicial tem funcionado como poderoso filtro seletivo. Isso é imutável? Dois cenários opostos são possíveis e compatíveis. Um é o reforço da competição seletiva na interpretação, provocada pelo afluxo de músicos virtuoses formados nos países mais povoados do planeta (como a China, que hoje tem mais estudantes de música clássica do que a população inteira dos Estados Unidos); e, de outro lado, o enfraquecimento das barreiras entre os gêneros musicais transformará a música contemporânea em um mosaico de gêneros menos esotéricos do que foram ao longo do último século.


"Bandeira branca", instalação do artista plástico Nuno Ramos [foto: divulgação]

“Desespecialização” nas artes visuais – As artes visuais evoluíram para uma espécie de “desespecialização” da formação e prática criativas (a arte conceitual e os tão falados urubus de Nuno Ramos são exemplo disso): o raciocínio por puro prolongamento das tendências sugere que se multiplicarão os híbridos entre as disciplinas artísticas (vídeo, cinema, pintura, escultura, teatro, ópera, dança), mas o argumento pode também ser o de uma resistência à simples convergência dos suportes e técnicas de criação, para recriar espaços autônomos de invenção e reinventar metiês, demonstrando, por exemplo, que o mictório de Duchamp pertence ao século passado e não constitui um horizonte de desagregação irresistível dos saberes artísticos especializados.

“Democracia do gênio” – A questão da superpopulação de artistas (todo mundo se acha artista) desaparecerá se a atenção e o reconhecimento (prestígio, ganho em dinheiro) entre os artistas não forem mais tão desigualmente repartidos. Estaríamos diante, então, de uma ‘democracia do gênio’? A parte mais visível da produção artística renunciará à celebração dos valores autônomos da arte e multiplicará as expressões de uma concepção funcional ou simplesmente hedonista da criação; a serviço da estética urbana, quando a imensa maioria da população mundial se aglomerará nas cidades e megalópoles; no culto descomplexado do divertimento; na redução dos desafios da invenção artística, pois a velocidade de circulação e troca dos conteúdos e ideias acelerará a obsolescência da inovação.

Desagregação da noção de obra – a utopia do “todo mundo artista” será sustentada por uma transformação da prática artística: autoformação em contexto de troca e aprendizagem mútua em rede, valorização das práticas híbridas, insistência sobre a atividade coletiva e a mutualização da noção de invenções criadoras, enfraquecimento do direito de propriedade em benefício da livre recombinação de ideias e de soluções acessíveis a todos. Igualzinho a Bach, no século 18, que vivia num mundo em que a noção de obra inexistia: ele catou concertos do italiano Antonio Vivaldi para violino, transcreveu-os para teclado e colocou seu nome como autor. Não estava plagiando, simplesmente a prática era comum.

Não deixa de ser curioso que a voragem tecnológica alucinante, em pleno século 21, acabe nos colocando num “túnel do tempo”, fazendo-nos experimentar as delícias da criação artística de três ou quatro séculos atrás. Menger não fala, mas de repente seremos todos pós-modernos em 2020.

Resumindo: é nóis na fita. Ou: será que não dá pra mudar nada neste exercício bem fundamentado de futurologia?