A nova produção de O anel do nibelungo, de Wagner, feita com um uso de inteligência artificial, foi vaiada na estreia no Festival de Bayreuth. A montagem celebra os 150 anos da obra e é assinada por um time de profissionais comandado pelo curador Marcus Lobbes.
Não há propriamente um diretor cênico na produção. Os créditos são dados a Lobbes, a um dramaturgista, um responsável pela “concepção artístico-técnica” e outro pela “narrativa digital e inteligência artificial”. A proposta do espetáculo é, a partir de imagens pré-selecionadas, ligadas à história do festival e suas produções, permitir que a IA escolha a sequência a ser projetada no palco.
Em um comunicado, os organizadores do festival afirmaram que “a IA não é um personagem, mas uma força de geração de imagens”. “Os cantores serão um ponto focal e um cosmos de luz, textura, história e associações, em meio a projeções que irrompem, se transformas e se fundem.”
“Como é de praxe em projetos desse tipo, o programa nos diz que os espectadores podem trazer sua própria interpretação à obra. É claro que você poderia passar horas a fio debruçado sobre capturas de tela de três segundos, comentando: "Ah, aquele é o Anel de Castorf... aquele, o de Kupfer... ah, sim, Wieland Wagner". No fim das contas, trata-se de um jogo intelectual inútil, que não traz insights e gera um enorme tédio”, escreveu a crítica Shirley Apthorp, do Financial Times.
No The Guardian, Flora Wilson abordou a ausência de espaço para os cantores. “Você deve estar se perguntando onde os cantores se encaixavam. Esqueça a noção de Wagner da obra de arte total: este Anel apresenta os elementos sonoros e visuais como vertentes separadas, mantendo o drama teatral no mínimo. Ao longo de quatro noites, alguns dos principais intérpretes de Wagner da atualidade posicionaram-se atrás — sim, atrás — da enorme tela de projeção, todos vestindo variações sutis de um mesmo figurino, lembrando monstros de baixo orçamento de Jornada nas Estrelas. Na maior parte do tempo, permaneciam imóveis. Personagens recém-assassinados simplesmente saíam de cena; nos momentos de clímax erótico, os amantes davam-se as mãos.”
Segundo o Financial Times, a proposta nasceu de questões financeiras. “O plano era apresentar dez obras de Wagner para celebrar os 150 anos do festival. Mas problemas orçamentários forçaram uma reavaliação. E o Anel do aniversário se tornou um experimento em inteligência artificial”, diz o texto.
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