Segundo o Instituto Baccarelli, mudança na programação "não decorre de uma avaliação artística das obras ou dos profissionais envolvidos”; Jocy de Oliveira, que apresentaria ópera em outubro, se diz vítima de preconceito
O Theatro Municipal de São Paulo atribuiu as mudanças na programação prevista para o segundo semestre à necessidade de adequar a temporada às “metas previstas no novo contrato e às condições operacionais e orçamentárias disponíveis”.
Foram feitas duas mudanças na agenda previamente anunciada no final do ano passado, quando a gestão era feita pela Sustenidos: o cancelamento da double bill formada por Édipo Rei, de Stravinsky, e Medea e o direito de ser diferente, de Jocy de Oliveira; e a substituição de Andrea Chénier, de Umberto Giordano, pela remontagem de Os pescadores de pérolas, de Bizet, atendendo à exigência da presença na programação da remontagem de um título. No lugar da double bill, foram programados três concertos da Orquestra Sinfônica Municipal, um deles com o Réquiem de Verdi, marcando a estreia do novo diretor musical do teatro, o maestro Fabio Mechetti.
A Sustenidos foi substituída pelo Instituto Baccarelli em junho. Na época, em entrevista à CONCERTO, o CEO do instituto, Edilson Venturelli, afirmou que a programação seria mantida como previamente anunciada. Questionado no início da semana pela reportagem, o Baccarelli afirmou que “apesar do desejo de preservar a programação originalmente prevista, foi necessário readequá-la às novas condições”.
No centro da questão estão as metas colocadas pelo contrato de gestão assinado entre o Baccarelli e a prefeitura de São Paulo. A programação de óperas prevê a realização de cinco óperas ao longo do ano, sendo uma delas uma remontagem. Como já havia sido remontada O amor das três laranjas, de Prokofiev, no primeiro semestre, foi questionada a decisão de substituir Andrea Chénier.
O Baccarelli explica, no entanto, que, “como o atual contrato teve início em junho de 2026, as metas deste primeiro período são cumpridas proporcionalmente aos sete meses de vigência no ano, correspondentes a 58% da meta anual”. Em outras palavras, a contagem começaria do zero a partir do momento em que a nova gestora assumiu o teatro.
Nesse caso, a meta a ser cumprida compreende três óperas mais uma remontagem. Os três novos títulos seriam Intolleranza, de Luigi Nono, programada pela Sustenidos, mas que teve algumas récitas realizadas já na nova gestão; Tristão e Isolda, de Wagner, encenada em julho; e Don Carlo, de Verdi, que sobe ao palco em setembro. E preencheria a necessidade de trazer de volta uma ópera do acervo do teatro, cumprindo a meta colocada.
Reação
Não seria, portanto, necessário manter mais uma produção na programação. Ainda assim, a decisão de cancelar a ópera de Jocy de Oliveira causou ruído no meio musical, uma vez que a obra celebraria os seus 90 anos; e foi uma encomenda feita pelo teatro, como ressaltou a compositora em uma notificação extrajudicial do dia 13 de agosto.
Nela, o advogado de Jocy cita o “tempo de trabalho efetivamente investido na concepção e no desenvolvimento de duas propostas distintas para atender às solicitações da instituição” e afirma que “existe uma legítima expectativa criada pela própria encomenda”. A notificação afirma ainda que a compositora “tem o direito a uma definição clara sobre o destino do projeto”. Em sua contranotificação, datada do dia 18, o Instituto Baccarelli afirma que, após sua chegada à gestão “e a análise dos contratos e demais instrumentos transferidos no processo de transição, não foi localizado contrato firmado” com a compositora. “Tal conclusão, entretanto, não significa desconsiderar as interlocuções anteriormente mantidas, nem impede que a Notificante apresente documentos ou informações que entenda relevantes para a adequada compreensão dos fatos.”
Jocy de Oliveira comparou o cancelamento a uma “bofetada”. “Não é questão de dinheiro, de apoio. É questão de respeito”, afirmou. Em uma carta aberta publicada nas redes sociais, ela se disse vítima de preconceito. “Pergunto-me se isso teria ocorrido caso eu fosse homem... Teria ocorrido caso eu fosse americana ou europeia? E isso aconteceria se a linguagem de minhas criações fosse uma cópia do bel canto do século dezenove em lugar de contemporânea?”
A publicação, com mais de 70 mil visualizações, foi endossada por iniciativas como a Fundação Donne, baseada na Inglaterra, dedicada à promoção do trabalho de compositoras, que também emitiu uma nota de repúdio em parceria com o coletivo Frequência Dissonante. “Não se trata apenas do cancelamento de um título da temporada. Perde-se uma oportunidade histórica de celebrar uma das mais importantes criadoras brasileiras. O resultado dessa decisão de última hora são, além do cancelamento de uma ópera encomendada e já composta por Jocy, uma temporada de óperas menor e sem a presença de sequer uma mulher à frente da direção cênica”, diz o texto.
O Instituto Baccarelli afirma, no entanto, que “a decisão não decorre de uma avaliação artística das obras ou dos profissionais envolvidos”. “No caso do double bill que reuniria Medea e o direito de ser diferente, de Jocy de Oliveira, e Édipo Rei, de Igor Stravinsky, a alteração atingiu o programa como um todo, não apenas a obra da Jocy”, diz o instituto.
“O Theatro Municipal reconhece em Jocy de Oliveira uma das figuras mais importantes e singulares da música brasileira, pioneira na experimentação entre música, teatro, tecnologia e linguagens multimídia. Ao longo de uma trajetória de décadas, obras como Kseni – A Estrangeira, entre tantas outras, ajudaram a ampliar os caminhos da criação musical contemporânea no Brasil. Sua obra e sua trajetória são motivo de profundo respeito e admiração por parte da instituição, que espera ter novas oportunidades de trabalhar com a compositora no futuro”, diz o texto enviado ao Site CONCERTO.
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